A tempestade passou... Não. Isso também é mentira.
Dentro de mim circula esse negócio que eu ainda não sei o que é. Como a fumaça do cigarro que carrega mais de quatro mil substâncias tóxicas que a gente nem sabe direito o que são. Interessa é que esse negócio, essa coisa. Ela circula. Talvez porque eu já tenha estado em vários estados diferentes e saiba mais ou menos quando. Quando.
Dentro de mim existem órgãos, veias, sangue. E essa coisa que eu ainda não sei direito o que é. Mais ou menos como as substâncias tóxicas contidas dentro de cada cigarro. Sim. Porque por agora tenho apenas essa impresão. De que "essa coisa que circula dentro de mim e eu ainda não sei bem o que é" é tóxica. Esse quando.
Não. Eu não fui tão maltratada assim. Não. Eu não fui aprisionada em nenhuma masmorra e forçada a tecer. Eu não passei fome. Eu não estive envolvida em nenhum desastre natural - exceto pela grande enchente de 83, em União da Vitória, mas mesmo assim eu estava dentro da barriga da minha mãe. Eu não fui maltratada o suficiente a ponto de desacreditar. Mas esse quando. Ele permanece. E permanece.
Talvez você tenha razão e essa coisa que percorre as minhas veias junto com o meu sangue. Essa coisa tóxica só exista em decorrência desses maltratozinhos bem pequenos. Tão pequenos que poderiam significar. Ou não. Talvez em decorrência daqueles vários outros quandos. Porque quando o quando aparece uma vez. Ou duas. Ou três. Inevitável achar que o quando vai aparecer outra vez. Com o perdão da rima pobre.
Sobre os quandos só se pode dizer que eles servem tanto para o passado quanto para o futuro. Embora quando faça parte do futuro do subjuntivo. Talvez não deste que eu tento escrever agora. Mas gramaticalmente assim é. E assim é que está.
Sobre os ques. Porque sempre além dos quando existem os "que" e os "se". Se está para o passado assim como quando está para o futuro. Que está para o presente assim como se está para o passado. Gramaticalmente assim está, se assim é.
Porque os quando já vieram. E vieram em bando. E por isso eu os espero sempre. Novamente. Uma vez após a outra. Inevitável que se procure um padrão na vida. Inevitável que se procure um padrão para qualquer coisa. Inclusive para o amor. Inevitável, mesmo que este de agora pareça, assim, tão melhor do que o de ontem. Tão melhor do que o da semana passada. Tão melhor do que todos os outros que já encontraram o seu quando. E que por isso não são mais futuro do subjuntivo. Só passado imperfeito mesmo. Como na frase: "eu te amava, sabe?"
Talvez eu tenha realmente sido maltratada demais. Apesar de nunca ter passado fome, nunca ter sido aprisionada em lugar nenhum, nunca ter sido obrigada a nada, nunca ter estado envolvida em um desastre natural. Talvez eu antecipe o quando. Só pra que eu possa ter o quando dessa vez. Ou da próxima. E por que não o padrão?
Porque dessa vez ninguém vai estragar as coisas na metade do caminho. Porque dessa vez apesar de todos os pesares o amor triunfará. Sim, porque dessa vez ele é tão mais bonito. Porque dessa vez o quando trará apenas continuações. Sem game over. O quando será sempre uma espera ansiosa. Quando eu te encontrar eu vou tal coisa. E o "tal coisa" só será substituído por coisas boas. Como margaridas e girassóis.
Então, não importa se você sente qualquer coisa pulsando, circulando, existindo nas suas veias além de sangue. Não importa, porque é só uma impressãozinha. Dessa vez é só uma impressão. E não se pode permitir que impressões destruam o concreto. Benefício da dúvida. Dúvida razoável. Essas coisas. Você já coloca mais de quatro mil substâncias tóxicas para circular aí todos os dias. Essa não. Por favor. Deixe de lado. Seja um pouco menos você. Fica tudo bem se você deixar você de lado. Só um pouquinho. Do contrário é bagagem demais. E daí podem haver quandos. Esses, não tão bons, quandos. Não importa.
Importa. O céu quase se abre...
Não. Isso também é mentira.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
sábado, 19 de setembro de 2009
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
eu só posto aqui nesse espaço textos de minha autoria. digressões e narrativas sobre coisas reais e absurdas. mas hoje, que é um hoje bastante significativo, abri esta exceção aqui. abri a exceção porque tem esse menino, meu menino, e ele me faz chorar. ele me faz chorar um choro levinho, de alegria e muita saudade. saudade do diariamente, das crises, das conversas longas, dos passeios, dos sucos e das saladas, dos cafés, dos textos lidos em primeira mão, do teatro em conjunto, das teorias absurdas. hoje eu tenho o coração levinho e um pouco apertado dessa saudade. por isso não consigo escrever coisa nenhuma pensando na forma. por isso não consigo escrever. e por não conseguir, e talvez mesmo que conseguisse, preciso mostrar o porquê da saudade e da leveza. o porquê da singeleza. o porquê do meu amor, inesgotável e intransordável e incondicional, por esse menino, meu menino, Luiz Felipe Leprevost. o texto dele diz exatamente assim:
Outro sapo, outro baiacu
ou
Uma pequenina peça de amor revista
ou
Uma pequenina peça de amor revista
.
“Um- Posso pôr meu coração a seus pés.
Dois- Se não sujar meu chão.
Um- Meu coração é limpo.”
(Heiner Müller)
.
É um figurino leve, confortável. Ela parece, muito, vestida de si mesma. Não usa máscara. Não há nada de insano em sua feição, pelo contrário, seu rosto revela uma alegria que chega a ser angelical.
.
Em algum momento do texto, ou durante o texto todo, fica a cargo da atriz, ela deve cantar. É um canto conhecido, cantado sempre por todos a sua volta. Mais se assemelha a uma fala de amor o canto. O canto é assim: A vida a vida a vida a vida a vida a vida a vida a vida a vida a vida a vida a vida a vida, eu aceito isso.
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Em algum momento do texto, ou durante o texto todo, fica a cargo da atriz, ela deve cantar. É um canto conhecido, cantado sempre por todos a sua volta. Mais se assemelha a uma fala de amor o canto. O canto é assim: A vida a vida a vida a vida a vida a vida a vida a vida a vida a vida a vida a vida a vida, eu aceito isso.
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tenho um coração
que é pra você
pois se aqui estou
é porque estou viva
e se estou viva
é porque tenho coração
e se tenho coração
ele é uma coisa que pulsa
não um sapo ou um baiacu
um sapo ou um baiacu são
coisas que pulsam
mas eles dois
que é pra você
pois se aqui estou
é porque estou viva
e se estou viva
é porque tenho coração
e se tenho coração
ele é uma coisa que pulsa
não um sapo ou um baiacu
um sapo ou um baiacu são
coisas que pulsam
mas eles dois
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há um sapo e um baiacu em cena
mas eles não são nojentos
são um sapo e um baiacu simpáticos
bonitinhos
de desenho animado
mas eles não são nojentos
são um sapo e um baiacu simpáticos
bonitinhos
de desenho animado
.
não são o coração a que me refiro
então, esse coração
que é esse
então, esse coração
que é esse
.
aponta o próprio peito
.
é um coração que pulsa
sim, pulsa
mas por aqui
a gente gosta de dizer
não que ele pulsa
mas que ele bate
então se bate
bate por quem?
bate por você que tanto venero?
vou dizer que te amo
que te venero
é claro que eu devia fazer isso!
se te venero
deve ser por você que o meu
coração bate
sim, é por você que o meu
coração bate
ele
ele ele ele ele
bate por você
para você e
para me manter viva em você
ele
ele ele ele ele
bate para que eu possa fazer
sim, pulsa
mas por aqui
a gente gosta de dizer
não que ele pulsa
mas que ele bate
então se bate
bate por quem?
bate por você que tanto venero?
vou dizer que te amo
que te venero
é claro que eu devia fazer isso!
se te venero
deve ser por você que o meu
coração bate
sim, é por você que o meu
coração bate
ele
ele ele ele ele
bate por você
para você e
para me manter viva em você
ele
ele ele ele ele
bate para que eu possa fazer
declarações de veneração
feito essa
na qual você reparou
feito essa pela qual
você foi conquistada
essa que é só pra você
pra você, pra você
que até o momento parece sentir
exatamente o mesmo que
venho sentindo
que sapos
ou baiacus
podem até ser bons signos para
se colocar em cena e
metaforicamente ser
chamados de “meu coração”
mas isso que está aqui
na verdade são os teus pés nus
lavados humildemente nas
feito essa
na qual você reparou
feito essa pela qual
você foi conquistada
essa que é só pra você
pra você, pra você
que até o momento parece sentir
exatamente o mesmo que
venho sentindo
que sapos
ou baiacus
podem até ser bons signos para
se colocar em cena e
metaforicamente ser
chamados de “meu coração”
mas isso que está aqui
na verdade são os teus pés nus
lavados humildemente nas
águas limpas do meu coração
de verdade
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
e aí quais são seus planos?
eu procuro, além da poesia, bolhas de sabão. procuro canteiros de margarida. procuro uma veia cava. procuro um lugar novo pra chamar de casa. tem uma máquina de lavar aqui perto. e eu vou enchê-la. porque eu sei que você quer assim. eu vou enchê-la de roupas e bolhas e margaridas e penas.
eu procuro uma coreografia para cigarros. que alterne movimentos rápidos e lentos, pesos e medidas. uma coreografia à quatro ou oito mãos.
quando eu te vi, lá daquela primeira vez, eu não soube instantaneamente. não. eu demorei um pouco. eu te vi e te enxerguei. mas não soube. e eu já vinha não te vendo há tanto tempo. foi só mais uma impossibilidade. você vinha não me vendo há tanto tempo. e nesse dia permaneceu assim. sem enxergar. talvez por fome. talvez por frio. talvez por mau humor. talvez por estar longe de casa numa segunda-feira às nove horas da noite. permaneceu sem me ver. talvez ainda por essa miopia ou coisa que o valha que você insiste em dizer que não existe. o fato é que você não me viu. como vinhamos fazendo há bastante tempo.
quando eu te vi, há pouco, nessa segunda vez que quase não houve, eu te enxerguei. e disse olá. e disse como vai. e disse vamos ao cinema. você pensava em outras coisas. em outra garota pouco importante. talvez ela fosse muito importante. pelo menos naquele instante em que você relutou um pouco em me enxergar.
quando eu insisti você aceitou. e me viu e me encontrou e não percebeu. ou percebeu. mas a garota pouco importante ainda era bastante naquele terceiro ou quarto instante. e de novo você relutou. mas eu falava de amor e de cigarros. sem ana, blues. eu bebia cerveja e achava bonitinho você dizer que o seu copo pequeno era copo pra tomar toddy. e eu te ouvi também falar sobre amor blues avenca cigarros. brasas de cigarro. e um pouco depois, já quase no fim daquele terceiro ou quarto instante você deve ter percebido que a garota não era importante o bastante e parou de me ouvir e me olhou. e parou de falar e me olhou. e parou.
sim. eu te chamei pra vir até aqui. eu falei de caio fernando abreu. eu cheguei cada vez mais perto. eu te beijei quando você olhava pra minha boca. eu decretei que você ia pra casa comigo. eu te dei a mão e te trouxe por esse caminho que a gente percorre sempre. eu trepei com você por várias horas até o dia amanhecer. eu dormi de conchinha. sim. talvez eu tenha iniciado todo esse processo que agora a gente chama de namoro. que a agora a gente chama de amor. eu desencadeei.
mas se eu quis tudo isso assim foi porque naquele instante remoto você talvez não tenha conseguido olhar direito por causa da sua miopia e talvez você não conseguisse ver de longe que eu já esperava por você. eu só não sabia como você era nem que horas você ia chegar. e te procurei em outras pernas outras bocas outros sexos. e sem conseguir achar aquilo que eu sabia que haveria de vir. aquilo que eu sabia ser você. aquilo que precisava ser você pra mim. continuei buscando em todos esses outros lugares errados. e passei por bosques escuros e chuvas torrenciais e reinos ainda mais cinzas e mais distantes do que este no qual se passa o nosso conto de fadas. e demorei tanto, todos esses anos, todos esses encontros furtivos. e demorei um lugar muito perto numa peça de teatro. e demorei uma segunda-feira na PUC. e demorei uma sexta-feira no wonka. e demorei noites em bares de gente incrivelmente moderna e chata.
e demorei e demorei. e você não percebeu que embaixo daquela camiseta do fluminense o meu coração batia apertado, perguntando "cadê?". e talvez você também não tenha percebido que. o teu coraçãozinho batia assim: "aqui. aqui." por isso quando eu cheguei em casa eu te liguei. porque pulsava em mim um cadê sem resposta. e de alguma maneira eu sabia, mesmo sem saber, que em você pulsava o sentido da minha pergunta. o sentido da minha afeição. e eu disse apenas boa noite. e havia naquele boa noite uma porção de sentidos ocultos. que só agora eu entendo.
você entende? os planos, vários.
cadê? cadê? cadê? cadê? cadê?
cadê você, porra?
eu estou sempre aqui. você sabe.
eu procuro, além da poesia, bolhas de sabão. procuro canteiros de margarida. procuro uma veia cava. procuro um lugar novo pra chamar de casa. tem uma máquina de lavar aqui perto. e eu vou enchê-la. porque eu sei que você quer assim. eu vou enchê-la de roupas e bolhas e margaridas e penas.
eu procuro uma coreografia para cigarros. que alterne movimentos rápidos e lentos, pesos e medidas. uma coreografia à quatro ou oito mãos.
quando eu te vi, lá daquela primeira vez, eu não soube instantaneamente. não. eu demorei um pouco. eu te vi e te enxerguei. mas não soube. e eu já vinha não te vendo há tanto tempo. foi só mais uma impossibilidade. você vinha não me vendo há tanto tempo. e nesse dia permaneceu assim. sem enxergar. talvez por fome. talvez por frio. talvez por mau humor. talvez por estar longe de casa numa segunda-feira às nove horas da noite. permaneceu sem me ver. talvez ainda por essa miopia ou coisa que o valha que você insiste em dizer que não existe. o fato é que você não me viu. como vinhamos fazendo há bastante tempo.
quando eu te vi, há pouco, nessa segunda vez que quase não houve, eu te enxerguei. e disse olá. e disse como vai. e disse vamos ao cinema. você pensava em outras coisas. em outra garota pouco importante. talvez ela fosse muito importante. pelo menos naquele instante em que você relutou um pouco em me enxergar.
quando eu insisti você aceitou. e me viu e me encontrou e não percebeu. ou percebeu. mas a garota pouco importante ainda era bastante naquele terceiro ou quarto instante. e de novo você relutou. mas eu falava de amor e de cigarros. sem ana, blues. eu bebia cerveja e achava bonitinho você dizer que o seu copo pequeno era copo pra tomar toddy. e eu te ouvi também falar sobre amor blues avenca cigarros. brasas de cigarro. e um pouco depois, já quase no fim daquele terceiro ou quarto instante você deve ter percebido que a garota não era importante o bastante e parou de me ouvir e me olhou. e parou de falar e me olhou. e parou.
sim. eu te chamei pra vir até aqui. eu falei de caio fernando abreu. eu cheguei cada vez mais perto. eu te beijei quando você olhava pra minha boca. eu decretei que você ia pra casa comigo. eu te dei a mão e te trouxe por esse caminho que a gente percorre sempre. eu trepei com você por várias horas até o dia amanhecer. eu dormi de conchinha. sim. talvez eu tenha iniciado todo esse processo que agora a gente chama de namoro. que a agora a gente chama de amor. eu desencadeei.
mas se eu quis tudo isso assim foi porque naquele instante remoto você talvez não tenha conseguido olhar direito por causa da sua miopia e talvez você não conseguisse ver de longe que eu já esperava por você. eu só não sabia como você era nem que horas você ia chegar. e te procurei em outras pernas outras bocas outros sexos. e sem conseguir achar aquilo que eu sabia que haveria de vir. aquilo que eu sabia ser você. aquilo que precisava ser você pra mim. continuei buscando em todos esses outros lugares errados. e passei por bosques escuros e chuvas torrenciais e reinos ainda mais cinzas e mais distantes do que este no qual se passa o nosso conto de fadas. e demorei tanto, todos esses anos, todos esses encontros furtivos. e demorei um lugar muito perto numa peça de teatro. e demorei uma segunda-feira na PUC. e demorei uma sexta-feira no wonka. e demorei noites em bares de gente incrivelmente moderna e chata.
e demorei e demorei. e você não percebeu que embaixo daquela camiseta do fluminense o meu coração batia apertado, perguntando "cadê?". e talvez você também não tenha percebido que. o teu coraçãozinho batia assim: "aqui. aqui." por isso quando eu cheguei em casa eu te liguei. porque pulsava em mim um cadê sem resposta. e de alguma maneira eu sabia, mesmo sem saber, que em você pulsava o sentido da minha pergunta. o sentido da minha afeição. e eu disse apenas boa noite. e havia naquele boa noite uma porção de sentidos ocultos. que só agora eu entendo.
você entende? os planos, vários.
cadê? cadê? cadê? cadê? cadê?
cadê você, porra?
eu estou sempre aqui. você sabe.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Eu percorro distâncias. Eu vou longe. Eu percorro longas distâncias só pra chegar até você.
Eu. Dentro de um táxi. Eu. Dentro de um ônibus. Eu. Parada. Diante de você. Os meus olhos peregrinam na mais sagrada romaria. Olhos com um único foco e objetivo de devoção. A tua boca. Meu olhos peregrinos focam esperando as mais divinas bênçãos. Nesta romaria meus olhos, peregrinos atentos, não tem pressa. E o resto de mim, o que está além dos olhos, sente todas essas pequenas correntes elétricas. Centenas de milhares de correntes elétricas que percorrem todo o meu corpo. Sem necessidade de toques ou palavras. Só desse foco de devoção atenção. Uma corrente elétrica plasmática que percorre todo o meu corpo muito mais rápido que o meu sangue. Muito mais rápido que essa metástase metafórica. Os meus peregrinos não se desconcentram. Esperam apenas. Olham apenas. Talvez tremam. Amam. Em sagrada devoção.
As centenas de milhares de correntes elétricas unem-se numa única. Porque também é único o meu objeto de atenção. Agora não só dos olhos. Mas de todos os órgãos - maiores e menores. A corrente elétrica plasmática que percorre todo o meu corpo em muito menos de oito segundos se intensifica. Afeta. Em oração eu escuto o som da tua respiração. Ainda que não tenha as mãos juntas. Ainda que não tenha juntos os nossos corpos. Em oração eu escuto, não com o ouvido, o som dos elétrons, prótons e nêutrons em movimento. Escuto cada átomo do teu corpo. Cada átomo que, eu sei eu sinto, também me escuta. A eletricidade está presente em tudo. Estática. Mas no meu corpo se fez corrente e percorre. Caminha pelas minhas veias como caminhasse em direção ao abismo. Queda frenética logo mais a frente. Em oração eu aceito. Não tenho medo.
Eu corro. A eletricidade corre. Percorre. Meu olhos, peregrinos imóveis, clamam por você. Focam, desfocadamente, a tua boca. Meus olhos escutam. Meus olhos de ouvidos bem abertos pra ouvir o som dos teus órgãos e da tua pele. O teu coração, dividido em quatro, pulsa na mesma batida do meu abrir e fechar de pálpebras. E eu me pergunto para quê servem as distâncias. Para quê serve a saudade de algo que está aqui. Diante de mim.
Então num movimento brusco os meus olhos são obrigados ao desvio. Eles se desviam, pois peregrinos humildes acham-se pouco dignos de fitar os teus. Desviam-se porque no movimento nos tocamos. Rapidamente nos tocamos e as correntes elétricas viram explosões de bolhas de sabão. Prismas. Brilhantes. Como se fossem produzidas em larga escala por uma máquina de lavar de amor no meio de uma revolução. Pode ser a revolução cubana. Pode ser esta revolução passageira do meu sangue contra mim. Impedindo o raciocínio prático. Não. Uma máquina. É preciso voltar. Ainda não acabou a procissão.
Como se fosse impossível exigir dos teus lábios uma abertura maior que comportasse mais do que uma palavra faço uma pergunta com possibilidade de resposta monossilábica. Você me olha. Imbuídos do mais puro sentimento de fé e devoção meus olhos se permitem repousar nos teus. A espera do sim ou do não. É quando uma espécie de pavor súbito me acomete. Como se você, ao abrir a boca, pudesse me transformar em pedra. E poderia. Como uma Medusa de sentidos trocados, você poderia. Dessa vez meus olhos não se desviam. Esperam. Ainda que apavorados. Esperam sempre. Esperam para sempre. Que esta tua resposta faça permanecer. Esperam a chuva. Uma chuva metafórica de bênçãos infinitas. Esperam pacientemente a chuva. A chuva hiperbólica que vem de dentro. A chuva de dentro do próprio guarda-chuva. Assim seja.
Eu. Dentro de um táxi. Eu. Dentro de um ônibus. Eu. Parada. Diante de você. Os meus olhos peregrinam na mais sagrada romaria. Olhos com um único foco e objetivo de devoção. A tua boca. Meu olhos peregrinos focam esperando as mais divinas bênçãos. Nesta romaria meus olhos, peregrinos atentos, não tem pressa. E o resto de mim, o que está além dos olhos, sente todas essas pequenas correntes elétricas. Centenas de milhares de correntes elétricas que percorrem todo o meu corpo. Sem necessidade de toques ou palavras. Só desse foco de devoção atenção. Uma corrente elétrica plasmática que percorre todo o meu corpo muito mais rápido que o meu sangue. Muito mais rápido que essa metástase metafórica. Os meus peregrinos não se desconcentram. Esperam apenas. Olham apenas. Talvez tremam. Amam. Em sagrada devoção.
As centenas de milhares de correntes elétricas unem-se numa única. Porque também é único o meu objeto de atenção. Agora não só dos olhos. Mas de todos os órgãos - maiores e menores. A corrente elétrica plasmática que percorre todo o meu corpo em muito menos de oito segundos se intensifica. Afeta. Em oração eu escuto o som da tua respiração. Ainda que não tenha as mãos juntas. Ainda que não tenha juntos os nossos corpos. Em oração eu escuto, não com o ouvido, o som dos elétrons, prótons e nêutrons em movimento. Escuto cada átomo do teu corpo. Cada átomo que, eu sei eu sinto, também me escuta. A eletricidade está presente em tudo. Estática. Mas no meu corpo se fez corrente e percorre. Caminha pelas minhas veias como caminhasse em direção ao abismo. Queda frenética logo mais a frente. Em oração eu aceito. Não tenho medo.
Eu corro. A eletricidade corre. Percorre. Meu olhos, peregrinos imóveis, clamam por você. Focam, desfocadamente, a tua boca. Meus olhos escutam. Meus olhos de ouvidos bem abertos pra ouvir o som dos teus órgãos e da tua pele. O teu coração, dividido em quatro, pulsa na mesma batida do meu abrir e fechar de pálpebras. E eu me pergunto para quê servem as distâncias. Para quê serve a saudade de algo que está aqui. Diante de mim.
Então num movimento brusco os meus olhos são obrigados ao desvio. Eles se desviam, pois peregrinos humildes acham-se pouco dignos de fitar os teus. Desviam-se porque no movimento nos tocamos. Rapidamente nos tocamos e as correntes elétricas viram explosões de bolhas de sabão. Prismas. Brilhantes. Como se fossem produzidas em larga escala por uma máquina de lavar de amor no meio de uma revolução. Pode ser a revolução cubana. Pode ser esta revolução passageira do meu sangue contra mim. Impedindo o raciocínio prático. Não. Uma máquina. É preciso voltar. Ainda não acabou a procissão.
Como se fosse impossível exigir dos teus lábios uma abertura maior que comportasse mais do que uma palavra faço uma pergunta com possibilidade de resposta monossilábica. Você me olha. Imbuídos do mais puro sentimento de fé e devoção meus olhos se permitem repousar nos teus. A espera do sim ou do não. É quando uma espécie de pavor súbito me acomete. Como se você, ao abrir a boca, pudesse me transformar em pedra. E poderia. Como uma Medusa de sentidos trocados, você poderia. Dessa vez meus olhos não se desviam. Esperam. Ainda que apavorados. Esperam sempre. Esperam para sempre. Que esta tua resposta faça permanecer. Esperam a chuva. Uma chuva metafórica de bênçãos infinitas. Esperam pacientemente a chuva. A chuva hiperbólica que vem de dentro. A chuva de dentro do próprio guarda-chuva. Assim seja.
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
quando a lua chegar na sétima casa.
o tempo cabe dentro de um relógio.
(entra Ofélia. seu coração é um relógio. entra Ofélia. a mulher das veias cortadas. a mulher com a cabeça no fogão à gás.)
Ontem deixei de me matar.
(entra a atriz que interpreta Ofélia. a atriz que interpreta Ofélia canta. embora todos sempre digam que a atriz que interpreta Ofélia não deveria mais cantar. a atriz que interpreta Ofélia aceita o pacto. faz braços de ballet e anda pela rua XV.)
Dorme minha pequena não vale a pena despertar.
(entra a outra atriz que interpreta Ofélia.)
Aqui quem fala é Elektra.
(entra a outra atriz que interpreta Ofélia. a outra atriz que interpreta Ofélia propõe um alongamento.)
Eu sou Ofélia, aquela que o rio não conservou. Saio para a rua, vestida em meu sangue.
Num tempo, que agora já é tão passado, tudo isso significou tanto mais. Agora apenas isso. Uma obra incompleta de um autor que em breve completa quinze anos de morte. Num tempo tão passado isso tudo significava amor. Hoje não. Hoje não teceremos as bênçãos mais sagradas. Naqueles dias talvez. E Deus, se é que ele existe, hoje chorou uma única lágrima. Hoje resta apenas a burocracia. E vamos em frente. Porque o amor se tornou algo supérfluo.
Dormir, talvez sonhar. O resto é silêncio.
Houve um tempo em que você me amou. Eu te amei o tempo todo.
(a atriz chora. Ofélia permanece muda. estática. pose de ballet.)
Existe, realmente, muito a ser dito. No entanto, o que já existe é tanto mais forte.
(eu peço desculpas na didascália. desculpa?)
o tempo destrói tudo. sim. o tempo destrói. e na ausência de qualquer coisa. não sobra. restam os escombros de uma nova dinamarca. restam os escombros do relógio. escombros e cadáveres e peixes e pedaços de cadáveres. eu plantei um girassol. restam os escombros do relógio. Ofélia, o seu coração é um relógio. o seu coração é tijolo. mas ele bate por você. o meu coração é puro. o rio de janeiro em maio. a revolução cubana. o porquinho da índia. a procura da poesia. um relógio. preso a uma banana de dinamite. um relógio que marca o tempo que falta para um explosão. novo big bang. um relógio, um tijolo, um girassol. um tempo outro. meu coração é um sapo ou um baicau. uma coisa que pulsa. mas por aqui a gente gosta de dizer que ele bate. bate por quem? só você não percebeu. meu coração/bomba-relógio em cena. meu coração/bomba-relógio nas tuas mãos. meu tijolo/coração aos teus pés. me dá um cigarro? me dá uma chance? me concede essa dança e junto com ela todo o teu passado? não. meu coração é um relógio. ponteiros quebrados. marcando sempre a mesma hora. um sapo ou um baiacu. aos meus pés. tijolos e concreto e coisas que erguem cidades e muros de silêncio. meu coração teu. não. nunca mais. meu coração/tijolo/sapo/baiacu/bomba-relógio/relógio parado.
e assim. acaba.
(Ofélia sai de cena. sem sangue. sem vísceras. sem coração.)
piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
o tempo cabe dentro de um relógio.
(entra Ofélia. seu coração é um relógio. entra Ofélia. a mulher das veias cortadas. a mulher com a cabeça no fogão à gás.)
Ontem deixei de me matar.
(entra a atriz que interpreta Ofélia. a atriz que interpreta Ofélia canta. embora todos sempre digam que a atriz que interpreta Ofélia não deveria mais cantar. a atriz que interpreta Ofélia aceita o pacto. faz braços de ballet e anda pela rua XV.)
Dorme minha pequena não vale a pena despertar.
(entra a outra atriz que interpreta Ofélia.)
Aqui quem fala é Elektra.
(entra a outra atriz que interpreta Ofélia. a outra atriz que interpreta Ofélia propõe um alongamento.)
Eu sou Ofélia, aquela que o rio não conservou. Saio para a rua, vestida em meu sangue.
Num tempo, que agora já é tão passado, tudo isso significou tanto mais. Agora apenas isso. Uma obra incompleta de um autor que em breve completa quinze anos de morte. Num tempo tão passado isso tudo significava amor. Hoje não. Hoje não teceremos as bênçãos mais sagradas. Naqueles dias talvez. E Deus, se é que ele existe, hoje chorou uma única lágrima. Hoje resta apenas a burocracia. E vamos em frente. Porque o amor se tornou algo supérfluo.
Dormir, talvez sonhar. O resto é silêncio.
Houve um tempo em que você me amou. Eu te amei o tempo todo.
(a atriz chora. Ofélia permanece muda. estática. pose de ballet.)
Existe, realmente, muito a ser dito. No entanto, o que já existe é tanto mais forte.
(eu peço desculpas na didascália. desculpa?)
o tempo destrói tudo. sim. o tempo destrói. e na ausência de qualquer coisa. não sobra. restam os escombros de uma nova dinamarca. restam os escombros do relógio. escombros e cadáveres e peixes e pedaços de cadáveres. eu plantei um girassol. restam os escombros do relógio. Ofélia, o seu coração é um relógio. o seu coração é tijolo. mas ele bate por você. o meu coração é puro. o rio de janeiro em maio. a revolução cubana. o porquinho da índia. a procura da poesia. um relógio. preso a uma banana de dinamite. um relógio que marca o tempo que falta para um explosão. novo big bang. um relógio, um tijolo, um girassol. um tempo outro. meu coração é um sapo ou um baicau. uma coisa que pulsa. mas por aqui a gente gosta de dizer que ele bate. bate por quem? só você não percebeu. meu coração/bomba-relógio em cena. meu coração/bomba-relógio nas tuas mãos. meu tijolo/coração aos teus pés. me dá um cigarro? me dá uma chance? me concede essa dança e junto com ela todo o teu passado? não. meu coração é um relógio. ponteiros quebrados. marcando sempre a mesma hora. um sapo ou um baiacu. aos meus pés. tijolos e concreto e coisas que erguem cidades e muros de silêncio. meu coração teu. não. nunca mais. meu coração/tijolo/sapo/baiacu/bomba-relógio/relógio parado.
e assim. acaba.
(Ofélia sai de cena. sem sangue. sem vísceras. sem coração.)
piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
meu amor é mais doce que guarda-chuvinha de chocolate.
meu amor é mais doce que chocolate.
meu amor é mais doce que bolo de chocolate.
meu amor é mais doce que bolo de chocolate com cobertura de brigadeiro.
meu amor é mais doce que brigadeiro.
meu amor é mais doce que o leite condensado que faz o brigadeiro.
meu amor é o mais doce do mundo.
meu amor é o mais doce da história da humanidade.
meu amor é um guarda-chuva.
meu amor é mais doce que chocolate.
meu amor é mais doce que bolo de chocolate.
meu amor é mais doce que bolo de chocolate com cobertura de brigadeiro.
meu amor é mais doce que brigadeiro.
meu amor é mais doce que o leite condensado que faz o brigadeiro.
meu amor é o mais doce do mundo.
meu amor é o mais doce da história da humanidade.
meu amor é um guarda-chuva.
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